A recente nomeação de Hernán Gómez Cisternas como novo CEO da Saam, multinacional de origem chilena que opera rebocadores nas Américas, a partir de 1º de fevereiro, é mais do que uma troca de comando. Ela simboliza a ascensão de um novo perfil de liderança exigido pelo setor marítimo, em um momento em que a indústria enfrenta uma confluência de desafios sem precedentes. O gestor do futuro, ou o líder marítimo 4.0, precisa dominar três pilares fundamentais: a transição para operações sustentáveis, a aceleração da transformação digital e a gestão estratégica de grandes investimentos em infraestrutura.

O perfil de Hernán Gómez, engenheiro com MBA pela Universidade de Chicago, que liderou a divisão de rebocadores da Saam Towage a se tornar a terceira maior do mundo, ilustra a necessidade de uma visão global e de uma sólida capacidade de gestão financeira e de desenvolvimento. Substituindo Macario Valdés Raczinsky, que esteve no cargo por mais de nove anos, Gómez assume em um cenário que demanda agilidade e inovação, competências que foram cruciais durante sua gestão anterior na empresa, onde ingressou em 2016.

O Desafio da Sustentabilidade

A pressão por descarbonização é uma realidade inegável. Um exemplo claro dessa tendência é a iniciativa da Portos dos Açores, em Portugal, que lançou uma concorrência internacional para a aquisição de dois rebocadores elétricos, um investimento de 30 milhões de euros. O objetivo é substituir embarcações antigas e aproveitar a energia de fontes renováveis locais. Para líderes como Gómez, o desafio é conciliar a eficiência operacional com metas ambientais ambiciosas, o que implica em investimentos vultosos em novas tecnologias e na reestruturação da frota e das operações portuárias.

A Imperativa Transformação Digital

Paralelamente à sustentabilidade, a digitalização avança como um pilar estratégico. No Brasil, o Porto de Santos está revitalizando o histórico Armazém 7 para abrigar um centro tecnológico e educacional. O projeto, que deve operar plenamente até 2027, visa criar um polo de ensino, pesquisa e transformação digital focado no desenvolvimento portuário. A liderança 4.0 deve não apenas entender de tecnologia, mas também ser capaz de implementá-la para otimizar processos, aumentar a segurança e criar novos modelos de negócio. A gestão baseada em dados e a automação são cruciais para a competitividade dos portos modernos.

Gestão de Investimentos e Expansão Estratégica

O terceiro pilar é a capacidade de gerir e atrair grandes investimentos. O governo brasileiro, por meio da Antaq, publicou editais para o leilão de quatro terminais portuários em fevereiro de 2026, com previsão de R$ 229 milhões em investimentos. Os terminais, localizados em Santana (AP), Natal (RN), Porto Alegre (RS) e Recife (PE), possuem vocações distintas, desde grãos até turismo. Um líder do setor marítimo precisa ter visão estratégica para identificar essas oportunidades, navegar em complexos processos regulatórios e garantir o retorno sobre o investimento em contratos de longo prazo, modernizando a infraestrutura e ampliando a capacidade logística.

A complexidade do cenário atual reside na interconexão desses três desafios. A aquisição de rebocadores elétricos, por exemplo, é uma decisão que envolve sustentabilidade, mas também requer um pesado investimento financeiro e a integração com sistemas digitais de gerenciamento de energia e de operações. O sucesso de um centro tecnológico como o do Porto de Santos depende de investimentos contínuos e de sua capacidade de gerar soluções que tornem as operações mais sustentáveis e eficientes.

Portanto, o perfil do executivo necessário para o futuro do setor transcende a gestão operacional tradicional. É preciso ser um estrategista multifacetado, com profundo conhecimento técnico, financeiro e tecnológico, além de uma forte orientação para a sustentabilidade. A trajetória de Hernán Gómez na Saam, marcada pelo crescimento e desenvolvimento, reflete essa nova demanda do mercado por líderes capazes de conduzir suas organizações em meio à complexidade da Quarta Revolução Industrial.

Conclusão

A mudança de liderança na Saam é um reflexo da evolução do setor marítimo e portuário como um todo. A era da Liderança Marítima 4.0 já começou, e o sucesso dependerá da habilidade dos novos gestores em harmonizar crescimento econômico com responsabilidade ambiental e inovação tecnológica. A capacidade de construir operações resilientes, eficientes e sustentáveis definirá os vencedores na competitiva arena marítima global das próximas décadas.