A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgou uma previsão que anima o agronegócio, mas desafia a logística nacional: uma produção recorde de 66,2 milhões de sacas de café para 2026. Este volume sem precedentes coloca em foco a capacidade da infraestrutura portuária do Brasil para escoar a produção. O desafio é amplificado por um debate crucial no setor sobre a estabilidade regulatória, que pode ser decisiva para atrair os investimentos necessários para modernizar e expandir os terminais.

Segundo os dados da Conab, o crescimento projetado de 17,1% em relação à safra anterior é resultado de um conjunto de fatores positivos, incluindo a expansão de 4,1% na área de produção e um aumento de 12,4% na produtividade, impulsionado por condições climáticas favoráveis e o uso de tecnologia no manejo das lavouras. A produção de café arábica deve atingir 44,1 milhões de sacas, enquanto a de conilon é estimada em 22,1 milhões.

Demanda Global e Pressão na Exportação

Este aumento na produção ocorre em um momento de alta demanda global. De acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o consumo mundial de café segue em tendência de alta, com os estoques globais nos níveis mais baixos dos últimos 25 anos. Em 2025, mesmo com uma queda no volume exportado, o Brasil alcançou uma receita recorde de 16,1 bilhões de dólares com a exportação de café, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), evidenciando a força do produto no mercado internacional e a consequente pressão sobre a cadeia de escoamento.

O escoamento eficiente de uma safra desta magnitude depende diretamente da capacidade e modernização dos portos. Para que o café chegue aos mercados internacionais de forma competitiva, é essencial que os terminais portuários operem com máxima eficiência, utilizando tecnologias de automação e gestão para evitar gargalos, filas de navios e custos adicionais que possam comprometer a rentabilidade dos produtores.

O Dilema da Estabilidade Regulatória

Contudo, enquanto o campo se prepara para uma colheita histórica, o setor portuário enfrenta incertezas no ambiente regulatório. Uma das principais preocupações atuais é a sinalização de uma revisão prematura da Resolução ANTAQ nº 109, de 21 de novembro de 2023. Esta norma é considerada um marco para a regulação dos serviços em terminais de contêineres, estabelecendo regras claras para organização, transparência e cobranças.

A importância da Resolução 109 foi reconhecida publicamente. Em 2024, a norma recebeu o Selo Ouro de Boas Práticas Regulatórias, concedido pelo MDIC, um atestado de sua qualidade e alinhamento com as melhores práticas. Como aponta o especialista Caio Morel em artigo recente, a norma trouxe clareza e previsibilidade a um dos temas mais sensíveis do setor.

A discussão sobre revisar uma norma recém-implementada e premiada, antes mesmo que seus efeitos possam ser totalmente avaliados, gera um clima de insegurança jurídica. O setor de terminais portuários é intensivo em capital e depende de investimentos de longo prazo. A estabilidade das regras é um pilar fundamental para que as empresas sintam-se seguras para investir na expansão de pátios, aquisição de equipamentos modernos e implementação de novas tecnologias.

Investimento e Produção Devem Caminhar Juntos

A conexão entre a safra recorde e a estabilidade regulatória é direta. Para absorver o aumento da demanda gerado pelo café e outras commodities, os portos brasileiros precisam de investimentos contínuos. A revisão prematura de normas estruturantes, como a Resolução ANTAQ nº 109, envia um sinal negativo ao mercado, aumentando o risco regulatório e desestimulando aportes que são cruciais para a competitividade do país.

Portanto, o desafio do Brasil para 2026 é duplo. Não basta apenas alcançar a excelência na produção agrícola; é imperativo garantir que a política regulatória portuária ofereça a previsibilidade e a segurança necessárias para que a infraestrutura logística evolua na mesma velocidade. A preservação dos ganhos regulatórios já conquistados é o caminho para assegurar que a safra histórica de café se traduza em desenvolvimento para o país, sem ficar retida nos portões dos terminais.