Enquanto portos globais enfrentam desafios de segurança e gestão cada vez mais complexos, as abordagens adotadas pelo Porto de Roterdã, na Holanda, e pelo Complexo Portuário de Paranaguá e Antonina, no Brasil, oferecem lições valiosas. De um lado, Roterdã intensifica o combate a fraudes financeiras sofisticadas com uma força-tarefa tecnológica. Do outro, Paranaguá investe no planejamento estratégico de longo prazo com participação social. Essas estratégias, uma reativa e outra proativa, ilustram a dualidade necessária para garantir a integridade e a eficiência do comércio marítimo global.

No dia 6 de fevereiro, a Autoridade Portuária de Rotterdam, em conjunto com a Associação Holandesa de Empresas de Armazenamento de Tanques (Votob), anunciou um acordo para fortalecer a luta contra o esquema conhecido como 'falsificação de armazenamento'. Esta prática criminosa consiste na venda de capacidade de armazenamento e estoques de produtos inexistentes, gerando prejuízos anuais estimados em pelo menos 10 milhões de euros para comerciantes internacionais.

A força-tarefa, que opera desde 2017 e conta com a participação de comerciantes de mercadorias (TCT) e da Polícia Portuária, utiliza ferramentas de perícia digital para identificar e desativar sites fraudulentos. Com o novo acordo, a colaboração busca se profissionalizar ainda mais. "Juntos, podemos fazer mais do que cada um de nós individualmente", afirmou Willem-Henk Streekstra, diretor da Votob, ressaltando a importância da cooperação para reduzir a incidência das fraudes.

A iniciativa já resultou na criação de uma lista negra com mais de 1.250 domínios maliciosos e uma plataforma centralizada, www.storagespoofing.nl, para alertar o setor. Além do impacto financeiro direto, a fraude de armazenamento prejudica a reputação de empresas legítimas e do próprio porto, tornando essas medidas de segurança cibernética essenciais para manter a confiança no ecossistema portuário de Roterdã.

Em um contraste estratégico, o Complexo Portuário de Paranaguá e Antonina adota uma abordagem proativa, focada no planejamento futuro. Na mesma data, o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) iniciou uma consulta pública online para a elaboração do Plano Mestre do complexo, um documento que orientará os investimentos e ações de curto, médio e longo prazos.

Com prazo até 7 de março, a consulta pública permite que cidadãos, empresas e entidades participem ativamente da construção do futuro do porto. O objetivo é alinhar o desenvolvimento portuário com as necessidades das cidades do entorno e otimizar os acessos logísticos, garantindo um crescimento sustentável e integrado, que previna gargalos operacionais e de infraestrutura antes que eles surjam.

A análise comparativa entre os dois portos revela a importância de uma governança dual. A abordagem de Roterdã é uma resposta direta e tecnológica a uma ameaça imediata e específica, demonstrando a necessidade de mecanismos de segurança reativos e ágeis. Em contrapartida, a iniciativa de Paranaguá evidencia como o planejamento estratégico e a governança participativa são fundamentais para construir resiliência e competitividade a longo prazo.

A segurança e a eficiência nas operações portuárias, como destaca Thiago Albuquerque, da Shipping Protection, são consequências diretas de um "planejamento estruturado e governança sólida". A capacidade de antecipar demandas, alinhar múltiplos stakeholders e adaptar-se a diferentes regulações é crucial. Nesse sentido, tanto o combate a fraudes em tempo real quanto o planejamento colaborativo são pilares de uma operação portuária moderna e segura.

Em conclusão, as lições de Roterdã e Paranaguá demonstram que não existe uma solução única para os desafios da governança portuária. A integridade do comércio marítimo global depende de uma combinação inteligente de estratégias: a prontidão para reagir a ameaças cibernéticas e financeiras com tecnologia de ponta, e a visão para planejar o futuro de forma inclusiva e estratégica. A integração dessas duas frentes é o que garantirá portos mais seguros, eficientes e preparados para o futuro.