O Contraste na Busca por uma Logística Sustentável

Enquanto o setor logístico global busca caminhos para a descarbonização, um paradoxo se torna evidente ao comparar diferentes modais. De um lado, empresas como a VLI Logística investem centenas de milhões em tecnologia para reduzir o impacto ambiental de suas operações ferroviárias no Brasil. Do outro, o transporte marítimo internacional, pilar do comércio global, vê suas emissões de dióxido de carbono (CO₂) crescerem significativamente, apesar dos avanços em combustíveis alternativos. Este cenário contrapõe um avanço local a um retrocesso global, questionando a eficácia das estratégias atuais.

VLI Acelera na Ferrovia com Foco em Eficiência

A VLI, uma das principais operadoras de soluções logísticas do Brasil, demonstrou seu compromisso com a sustentabilidade ao receber, em fevereiro, as duas últimas locomotivas de um lote de oito unidades da Progress Rail, do grupo Caterpillar. Este movimento faz parte de um investimento total de cerca de R$ 600 milhões desde 2024, que resultou na aquisição de 27 novas locomotivas para a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA). Segundo Fábio Marchiori, CEO da VLI, a modernização da frota é crucial para reduzir a emissão de gases de efeito estufa e atender com mais eficiência setores como agronegócio e construção civil.

A iniciativa está alinhada à expectativa de renovação da concessão da FCA, que prevê investimentos superiores a R$ 30 bilhões. Esse aporte futuro permitirá a compra de mais vagões e locomotivas, visando um aumento de mais de 40% no volume transportado e a geração de mais de 15 mil empregos. A parceria com a Progress Rail se estende à manutenção, com um contrato de 10 anos focado nas operações do Corredor Norte, reforçando a visão de longo prazo da VLI para uma operação mais limpa e eficiente.

Maré Alta de Emissões no Transporte Marítimo

Em forte contraste, o cenário marítimo global apresenta dados preocupantes. Uma análise da consultoria Drewry, baseada em informações da Organização Marítima Internacional (OMI), revelou que os navios emitiram 5,5% mais CO₂ em 2024 do que em 2023. O aumento ocorre mesmo com o progresso, ainda que lento, no uso de combustíveis alternativos, que representaram apenas 8,7% da demanda energética do setor no último ano. O crescimento do comércio e da frota global está superando os ganhos de eficiência.

O relatório da Drewry aponta que o consumo anual de combustível da frota mundial atingiu 223 milhões de toneladas. Fatores como a crise no Mar Vermelho, que força navios a contornarem o Cabo da Boa Esperança, aumentaram as distâncias percorridas e, consequentemente, as emissões. O segmento de porta-contêineres foi especialmente impactado, com um aumento de 11,7% em sua tonelagem de porte bruto (TPB) em 2024.

Desafios Regulatórios e Metas Distantes

As regulamentações internacionais, como o Índice de Intensidade de Carbono (IIC), parecem insuficientes para reverter a tendência. Surpreendentemente, a porcentagem de embarcações em conformidade com o IIC caiu de 77,8% em 2023 para 77,3% em 2024. No setor de porta-contêineres, a queda foi ainda maior, de 5%, devido ao aumento da velocidade média e das horas de operação para compensar as rotas mais longas.

A análise da Drewry conclui que, embora a intensidade de carbono por milha navegada tenha diminuído, o aumento absoluto das emissões torna a meta da OMI de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 20% até 2030 'mais distante'. O objetivo de adotar combustíveis com emissão zero ou quase zero também está longe de ser alcançado, evidenciando uma lacuna crítica entre as metas estabelecidas e a realidade operacional do setor.

Conclusão: Uma Jornada Desigual para a Sustentabilidade

O caso da VLI ilustra como investimentos focados em tecnologia e modernização podem gerar resultados positivos em modais específicos, como o ferroviário. No entanto, o aumento das emissões no transporte marítimo mostra que esforços isolados não são suficientes. A transição para uma logística verdadeiramente verde exige uma abordagem integrada e regulamentações globais mais rigorosas e eficazes, capazes de alinhar o crescimento do comércio com as metas climáticas urgentes, um desafio que o setor marítimo, vital para a economia mundial, ainda precisa superar.