O setor portuário brasileiro vivencia um paradoxo notável. Em 10 de fevereiro, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) anunciou um recorde histórico de 1,4 bilhão de toneladas movimentadas nos portos em 2025. No entanto, no mesmo dia, o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) divulgou uma queda drástica de 30,8% nas exportações de café em janeiro de 2026. Essa dualidade expõe um cenário complexo no comércio exterior do país, onde o crescimento agregado é impulsionado por commodities específicas, enquanto setores tradicionais enfrentam desafios significativos.
O Recorde Portuário e Seus Motores
De acordo com o relatório “Desempenho Aquaviário 2025”, apresentado pelo diretor-geral da Antaq, Frederico Dias, o volume recorde representa um crescimento de 6,1% em relação a 2024. O secretário nacional de Portos, Alex Ávila, destacou que o resultado é fruto de um ambiente de estabilidade e segurança jurídica que tem atraído investimentos. “Hoje, temos um modelo maduro, que atrai o investidor e garante que a nossa infraestrutura acompanhe a velocidade da produção brasileira”, afirmou Ávila durante o evento.
O agronegócio continua sendo o principal protagonista desse sucesso. A movimentação de soja registrou um crescimento expressivo de 14%, totalizando 139,7 milhões de toneladas. Em outra frente, a importação de adubos e fertilizantes cresceu 10%, atingindo 49,3 milhões de toneladas, o que sinaliza um forte investimento para as próximas safras. O transporte de cargas conteinerizadas, que inclui produtos de maior valor agregado, também avançou 7,2%, somando 164,6 milhões de toneladas.
Esse crescimento é sustentado por investimentos robustos. Durante 2025, o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) realizou oito leilões portuários que totalizam R$ 10,3 bilhões em aportes para modernização e ampliação. Além disso, o capital privado injetou R$ 5,81 bilhões por meio de novas autorizações para Terminais de Uso Privado (TUPs) e outros R$ 2,07 bilhões via gestão contratual, fortalecendo a infraestrutura logística nacional.
A Queda do Café e Suas Implicações
Em forte contraste com o otimismo geral, o setor cafeeiro iniciou 2026 com um resultado alarmante. O relatório do Cecafé mostrou que as exportações em janeiro somaram apenas 2,78 milhões de sacas, uma retração de 30,8% em volume comparado ao mesmo período de 2025. A receita cambial também sofreu, caindo 11,7% e alcançando US$ 1,175 bilhão, um sinal preocupante para um dos produtos mais tradicionais da pauta exportadora brasileira.
A queda foi generalizada entre os diferentes tipos de café. O arábica, que compõe 84,4% dos embarques, recuou 29,1%. O café canéfora (conilon e robusta) teve uma queda ainda mais acentuada, de 45,6%. Nem mesmo os cafés especiais, de maior valor agregado, escaparam da tendência negativa, com uma diminuição de 41,9% no volume exportado.
O desempenho negativo também se refletiu nos principais mercados importadores. As remessas para os Estados Unidos, segundo maior comprador, despencaram 46,7%, enquanto a Alemanha, principal destino, reduziu suas aquisições em 16,1%. A Itália se destacou como uma exceção, com um aumento de 6% nas importações, mas o volume foi insuficiente para reverter o quadro geral de perdas.
Análise do Paradoxo e Perspectivas
Os dados conflitantes do setor portuário geral e do segmento de café ilustram a complexidade da balança comercial brasileira. O país celebra o sucesso impulsionado por commodities como a soja e por uma infraestrutura logística fortalecida por investimentos, mas ao mesmo tempo, revela vulnerabilidades em setores específicos. Este cenário sublinha a necessidade de diversificar a pauta exportadora e criar estratégias de apoio para produtos tradicionais que enfrentam a volatilidade do mercado global. O desafio para 2026 será equilibrar o crescimento das grandes commodities com a resiliência de outros setores vitais para a economia.