O setor de transporte aéreo de cargas projeta um crescimento de 4% em nível global para 2026, com o Brasil apresentando potencial para superar essa média devido ao seu elevado consumo interno. A relevância estratégica do modal cresce em um cenário de tensões geopolíticas e busca por agilidade, conforme debatido no Comexhoje 2026, realizado no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. A necessidade imediata reside na descentralização das operações, atualmente concentradas nos aeroportos de Guarulhos e Viracopos, para fortalecer o atendimento às demandas do Sul do país e otimizar a distribuição de mercadorias de alto valor agregado.

Fim dos diferenciais fiscais e saturação de rotas

Helton Duarte, executivo da Faurecia/Forvia, alerta que a unificação tributária prevista na reforma brasileira alterará drasticamente a dinâmica logística. Estados como Santa Catarina e Espírito Santo perderão os diferenciais fiscais que historicamente atraíam cargas internacionais. Sem esses incentivos, a eficiência operacional e a proximidade geográfica tornam-se os únicos critérios determinantes. Duarte defende que o mercado e as companhias aéreas devem articular a expansão de voos para terminais sulistas, reduzindo a dependência excessiva do eixo paulista.

René Genofre, diretor da Allog, destaca que cargas críticas como semicondutores, servidores para datacenters e fármacos impulsionam a demanda por fretes aéreos. Enquanto o mercado global registrou retração em certas rotas no início de 2026, polos tecnológicos na Ásia apresentaram crescimento de 9%, sinalizando onde os investimentos em infraestrutura brasileira devem focar. A descentralização não é apenas uma conveniência geográfica, mas uma exigência para manter a competitividade de cadeias produtivas que operam no modelo just-in-time.

Modernização do POA26 e integração regional

No setor portuário, o leilão do terminal POA26, em Porto Alegre, vencido pelo Consórcio Portos do Sul, marca um passo decisivo para a logística gaúcha. Com um investimento previsto de R$ 21,13 milhões, a meta é dobrar a movimentação para 624 mil toneladas anuais até o terceiro ano de contrato. O ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, ressalta que a concessão transforma o Rio Grande do Sul em um hub de integração regional sul-americano, aproveitando sua localização estratégica no eixo do Mercosul.

O projeto inclui a construção de dois novos armazéns totalizando 14 mil metros quadrados e a modernização completa de pavimentação e iluminação. Alex Sandro de Ávila, secretário nacional de Portos, enfatiza que esse aporte é vital para a recuperação da infraestrutura portuária após as severas enchentes de 2024. A revitalização do POA26, localizado na margem esquerda do rio Guaíba, complementa a visão de um sistema multimodal mais robusto, conectando o transporte fluvial e marítimo à agilidade do modal aéreo em expansão.

Customização logística e novos nichos de mercado

Davi Piza, da Zurich Airport Brasil, aponta que aeroportos com menor volume de tráfego, como o de Florianópolis, oferecem uma flexibilidade que os grandes hubs não conseguem replicar. A capacidade de customizar processos permitiu, por exemplo, a atração de operações complexas como a instalação de um datacenter para o TikTok em 2025. Essa agilidade no atendimento ao cliente é o diferencial que o Sul do Brasil pode explorar para absorver a carga de tecnologia e e-commerce que hoje sobrecarrega São Paulo.

A integração entre terminais portuários modernizados e aeroportos eficientes cria um ecossistema resiliente. O fortalecimento de parcerias entre agentes de carga e indústrias, aliado a sistemas de gestão robustos, é o caminho para mitigar riscos logísticos. A descentralização, portanto, deixa de ser uma teoria acadêmica para se tornar uma necessidade operacional urgente para profissionais que buscam previsibilidade em suas cadeias de suprimentos.

A reestruturação logística observada no Sul do Brasil demonstra uma maturidade crescente do setor em face de adversidades climáticas e mudanças regulatórias. Mesmo após o impacto profundo das intempéries de 2024, os investimentos privados e as concessões públicas sinalizam que o país caminha para uma infraestrutura mais descentralizada e eficiente. O desafio permanece na execução ágil dessas benfeitorias e na capacidade de convencer os grandes players globais de que o interior do Brasil possui condições técnicas para operar no mais alto nível. O crescimento econômico sustentável depende dessa evolução contínua, provando que, apesar das lacunas históricas, o setor logístico nacional mantém sua trajetória de expansão e inovação.