A Wilson Sons e a Ferroport iniciaram no dia 17 de abril testes de abastecimento com o biocombustível BeVant no rebocador WS Rosalvo, operando no terminal de minério de ferro do Porto do Açu, em São João da Barra (RJ). O insumo, produzido pela Be8 a partir de óleo de soja, gordura animal e óleo de cozinha usado, tem o objetivo de reduzir em até 99% as emissões de dióxido de carbono (CO2) em comparação ao uso do óleo diesel marítimo tradicional.
Alinhamento entre operação nacional e metas globais
A iniciativa no Rio de Janeiro ocorre no mesmo momento em que a Associação Internacional de Portos e Harbors (IAPH) divulgou, em 28 de abril, a pesquisa IAPH World Ports Tracker 2026. O relatório, elaborado pelos professores Theo Notteboom e Thanos Pallis, engloba complexos responsáveis por movimentar mais de 8,6 bilhões de toneladas de carga marítima anualmente. Os dados mostram que mais da metade das autoridades portuárias consultadas mantêm o compromisso público de atingir a neutralidade de carbono antes de 2050, mesmo com as dúvidas sobre o status do IMO Net Zero Framework, debatido desde outubro do ano anterior.
No Brasil, a aplicação prática dessa transição energética exige validação técnica. Durante a operação do WS Rosalvo, as equipes de engenharia realizam análises de desempenho, avaliam a durabilidade dos componentes do motor e monitoram o volume exato de emissões por meio de sistemas de telemetria instalados a bordo. O diretor-executivo de rebocadores da Wilson Sons, Márcio Castro, acompanha os indicadores de desgaste mecânico, pois os resultados consolidados formarão a base para a futura certificação internacional da frota. Esse processo técnico é parte de um movimento onde portos brasileiros aceleram a transição energética com testes de biocombustíveis no apoio marítimo.
Infraestrutura física e adaptação da matriz
A produção do biodiesel BeVant acontece na unidade da Be8 em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. O presidente da empresa, Erasmo Carlos Battistella, estrutura a cadeia de suprimentos para garantir que o combustível chegue aos terminais fluminenses com a especificação exata exigida pelos motores navais. A adequação logística nacional dialoga diretamente com as descobertas do diretor executivo da IAPH, Patrick Verhoeven. O executivo identificou que um terço dos terminais globais mapeados na pesquisa possui infraestrutura adaptada para fornecer combustíveis marítimos de baixo ou zero carbono, com predominância atual do Gás Natural Liquefeito. Os avanços na Europa e no Brasil consolidam a nova era dos portos sustentáveis exigida por armadores em rotas de longo curso.
Para o gerente de sustentabilidade da Ferroport, Edenilson Sanches, a transição para compostos biológicos no Porto do Açu exige reestruturações nos contratos de fornecimento e nos protocolos de segurança nos berços de atracação. A mudança na matriz energética altera o fluxo de armazenamento interno, demandando novos tanques e calibração das bombas de transferência. O setor lida com fluidos que possuem propriedades de viscosidade e queima diferentes dos derivados de petróleo tradicionais. Isso exige o retreinamento imediato das tripulações de convés e mecânicos de praça de máquinas.
Engenharia aplicada na frota naval
A adoção do BeVant e as métricas levantadas pela IAPH expõem o atraso na renovação tecnológica das embarcações de apoio. Motores de grande porte foram projetados durante décadas para operar com óleo combustível pesado, insumo barato e altamente poluente. Injetar um composto derivado de gordura animal em um equipamento submetido a picos extremos de tração durante a manobra de atracação de um navio Capesize impõe estresse térmico diferente nos pistões e exige monitoramento contínuo das camisas dos cilindros.
A pesquisa da IAPH, que cruzou informações com bancos de dados da UNCTAD e da S&P Global, detalha que as administrações portuárias enfrentam exigências orçamentárias simultâneas. As autoridades relatam a necessidade de fortalecer as redes de cibersegurança contra ataques a sistemas de escaneamento de contêineres e construir barreiras físicas para proteção contra o aumento do nível do mar. A remoção de entraves jurídicos para a geração de energia onshore também aparece no levantamento como etapa obrigatória para que navios desliguem seus geradores auxiliares a diesel enquanto operam nos cais.
Os testes da Wilson Sons na costa fluminense e as diretrizes do relatório da IAPH materializam a rota do transporte marítimo para a próxima década. O Brasil enfrenta gargalos severos de acesso rodoviário aos complexos portuários e arranjos burocráticos que encarecem o custo logístico do exportador. Contudo, ao observar projetos nacionais de biocombustíveis de alta performance para a navegação, fica claro que o país mantém forte capacidade de adaptação industrial. O setor logístico brasileiro consegue evoluir tecnologicamente e implementar engenharia de ponta nas suas vias navegáveis, superando falhas estruturais históricas e entregando serviços no padrão global.
O marco final da operação no WS Rosalvo ocorrerá com o término do período de coleta de dados, quando os engenheiros navais emitirão o laudo definitivo sobre o desgaste e a carbonização dos injetores. As informações da telemetria serão entregues a auditorias independentes para validar a eliminação das emissões junto à Organização Marítima Internacional. Simultaneamente, a IAPH publicará a próxima edição do World Ports Tracker no segundo semestre de 2026, com o objetivo de auditar se a infraestrutura de abastecimento global ultrapassou a marca de um terço dos portos equipados com matrizes energéticas limpas.