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title: "Digitalização do conhecimento humano redefine automação em portos"
author: "Redação"
date: "2026-08-06 10:26:00-03"
category: "Portos"
url: "http://tp.scale.press/portal/tp/post/2026/08/06/digitalizacao-do-conhecimento-humano-redefine-automacao-em-portos/md"
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## Resumo
- A Priime Tech automatizou os gates de saída do Porto Itapoá com sistemas AGS e OCR, eliminando a digitação manual de placas, contêineres e lacres e validando dados em tempo real contra o TOS
- Terminais com 300 acessos diários e 4 minutos por divergência cadastral acumulam mais de 20 horas de tempo improdutivo por dia quando operam com digitação manual
- No Porto de Tianjin, na China, décadas de experiência de operadores veteranos foram convertidas em algoritmos de IA para guiar robôs autônomos 24 horas por dia com conectividade 5G e energia renovável
- A parceria entre Kalmar e APM Terminals, anunciada em 30 de julho de 2026, co-desenvolve o sistema Kalmar One com modelo Automation as a Service, integrando know-how operacional diretamente no software
- O mercado global de smart ports pode alcançar entre US$ 7,95 bilhões e US$ 14,64 bilhões até 2030, com taxas de crescimento anual de 25,8% a 29,8%
- A China opera 60 terminais totalmente automatizados, superou 330 milhões de TEUs em 2024 e investiu US$ 24 bilhões em 168 portos de 90 países entre 2000 e 2025
- A digitalização do conhecimento tácito de operadores veteranos se torna condição de competitividade, preservando décadas de experiência em formatos digitais auditáveis e transferíveis

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A **Priime Tech**, empresa catarinense fundada em 2006 em Brusque (SC), automatizou os gates de saída do **Porto Itapoá** com sistemas AGS e OCR, eliminando a digitação manual de placas de veículos, números de contêineres e códigos de lacres. A implementação integra um movimento global que redefine a automação portuária: já não se trata apenas de mecanizar equipamentos, mas de converter o conhecimento tácito de operadores veteranos em dados digitais auditáveis e transferíveis. No **Porto de Tianjin**, na China, a mesma lógica foi aplicada em escala industrial — décadas de experiência humana transformadas em algoritmos de inteligência artificial para guiar robôs autônomos 24 horas por dia.

## Gates que capturam o que antes se perdia

Para mensurar o impacto da operação manual, basta calcular o custo do tempo improdutivo. Terminais portuários com **300 acessos diários** e uma média de **quatro minutos por divergência cadastral** acumulam mais de **20 horas** de espera e retrabalho a cada dia útil — tempo gasto por seguranças e operadores conferindo documentos, digitando placas e corrigindo erros de transcrição. A Priime Tech atacou esse gargalo com duas tecnologias complementares: o sistema **AGS** (Automated Gate System), que controla o fluxo de veículos nos acessos, e o **OCR** (Reconhecimento Óptico de Caracteres), que lê automaticamente placas, números de contêiner e códigos de lacres sem intervenção humana. A combinação valida os dados em tempo real contra o **TOS** (Terminal Operating System) e as bases de acessos autorizados, capturando cada registro com selo de data e hora.

A empresa opera com modelo turnkey e mantém presença em mais de **130 portos globalmente** sob a liderança do CEO **Petersen Poia** e do diretor de soluções **Rogério Kohler**. Os resultados mensuráveis já aparecem no Porto Itapoá: em 2023, o terminal registrou aumento de **18%** no primeiro trimestre, atingindo **533.423 TEUs** movimentados, e alcançou o recorde de **172,26 movimentos por hora** em maio. O desempenho levou Itapoá da quinta para a terceira posição em movimentação de contêineres no Brasil, com reconhecimento do **IBRC** como detentor do maior índice de satisfação de clientes do país. Esses números não surgem apenas da automação de equipamentos — refletem a capacidade de o terminal usar dados operacionais digitalizados para tomar decisões mais rápidas e precisas.

O que diferencia essa abordagem da automação tradicional é a preservação digital do conhecimento tácito. Quando um operador de gate com 15 anos de experiência sabe, por exemplo, que determinados transportadores sempre trazem documentos incompletos ou que certas placas de reboque pertencem a frotas autorizadas mesmo que o sistema não registre, esse saber tácito costuma se perder com a aposentadoria ou a rotatividade de pessoal. Ao digitalizar cada acesso, cada conferência e cada validação, a tecnologia da Priime Tech cria um registro histórico que pode ser minerado por algoritmos, ensinando o sistema a antecipar problemas e reduzir a dependência de indivíduos específicos. A digitalização, nesse contexto, funciona como uma memória institucional permanente do terminal. [Mais detalhes sobre a implementação podem ser encontrados nesta análise técnica da operação.](https://tecnologiaportuaria.info/post/2026/08/03/priime-tech-automatiza-gates-portuarios-e-transforma-experiencia-de-veteranos-em-dados-digitais)

## Décadas de experiência viram código na China

O conceito de digitalização do conhecimento humano atingiu sua forma mais avançada no Porto de Tianjin, no nordeste da China. A **Tianjin Port First Port Terminal Co. Ltd.** converteu décadas de experiência acumulada por operadores veteranos em algoritmos de inteligência artificial capazes de guiar uma frota de robôs de transporte autônomos que operam **24 horas por dia**. O caso do vice-capitão de equipe de trailers **Cheng Weidong** ilustra o processo: suas decisões diárias sobre rotas, prioridades e manobras — construídas ao longo de anos de operação no pátio — foram registradas, analisadas e traduzidas em código. Os robôs resultantes utilizam conectividade **5G** e o sistema de posicionamento **BeiDou** para navegar o terminal com precisão centimétrica, sem a necessidade de supervisão humana constante.

A operação em Tianjin é alimentada por **energia renovável**, o que posiciona o terminal como referência em infraestruturas inteligentes de zero carbono. O modelo, contudo, não é exclusividade de um único porto chinês. O país opera **60 terminais de contêineres totalmente automatizados** e superou a marca de **330 milhões de TEUs** movimentados em 2024. Os portos de **Qingdao** — primeiro terminal 100% automatizado na Ásia — e **Yangshan**, em Xangai — líder no ranking CPPI em 2023 — seguem a mesma filosofia de transformar conhecimento humano em infraestrutura digital permanente.

A escala chinesa evidencia uma verdade que o setor portuário brasileiro ainda enfrenta com relutância: a digitalização do conhecimento não é um diferencial de luxo, mas uma estratégia de sobrevivência operacional. Quando operadores veteranos se aposentam, décadas de savoir-faire desaparecem em poucos meses. A conversão desse saber em dados estruturados — como fez Tianjin — permite que terminais mantenham a performance mesmo com rotatividade elevada de pessoal, algo que afeta diretamente a competitividade no mercado global de movimentação de cargas. A China investiu cerca de **US$ 24 bilhões** em **168 portos de 90 países** entre 2000 e 2025, ampliando sua influência nas Américas de 10,8% no período 2000-2020 para **30%** entre 2020 e 2025. [O movimento de digitalização em portos brasileiros e globais avança em múltiplas frentes simultaneamente.](https://tecnologiaportuaria.info/post/2026/08/05/automacao-e-digitalizacao-aceleram-transformacao-em-portos-brasileiros-e-globais)

## Know-how operacional vira ativo de serviço

A mesma lógica de transformar expertise operacional em software permeia a parceria anunciada em **30 de julho de 2026** entre a **Kalmar** e a **APM Terminals**. As duas empresas firmaram acordo estratégico para co-desenvolver a solução **Kalmar One**, com o componente central sendo o modelo **Automation as a Service** — uma estrutura comercial que combina software, equipamentos e expertise operacional em um pacote integrado. A APM Terminals, que em 2025 realizou **27.000 atracações** e **25,8 milhões de movimentos** em **35 instalações globais**, obteve acesso ao código-fonte do sistema e trabalha lado a lado com engenheiros da Kalmar para integrar seu know-how operacional diretamente na plataforma.

**Hans Jacobs**, Head of Operational Technology & Analytics da APM Terminals, afirmou que a combinação de capacidades de equipamentos e software da Kalmar com a expertise operacional da APM permite co-desenvolver soluções de automação mais seguras, transparentes e alinhadas às necessidades operacionais reais. O primeiro teste em larga escala da parceria está programado para o **Pier 400, em Los Angeles**. Se bem-sucedido, o modelo consolida uma tendência que redefine a relação entre fabricantes de equipamentos e operadores portuários: em vez de vender máquinas e esperar que o cliente descubra como usá-las, o fornecedor incorpora a experiência operacional do cliente diretamente no produto. É o conhecimento do operador transformado em ativo comercializável.

O mercado global de smart ports, avaliado entre **US$ 2,53 bilhões** e **US$ 3,24 bilhões** em 2024/2025, projeta crescimento para faixas entre **US$ 7,95 bilhões** e **US$ 14,64 bilhões** até 2030, com taxas anuais compostas de **25,8%** a **29,8%**, dependendo da consultoria — MarketsandMarkets e Grand View Research, respectivamente. A automação responde por **33,1%** da receita do segmento em 2024, e a região **Ásia-Pacífico** concentra **39,1%** do mercado. Esses números confirmam que a digitalização do conhecimento humano não é uma abordagem marginal, mas o centro da próxima onda de investimentos em infraestrutura portuária global.

## Do operador ao algoritmo, a nova equação portuária

O que conecta a Priime Tech em Itapoá aos robôs de Tianjin e à parceria Kalmar-APM é a mesma premissa: o conhecimento humano acumulado em décadas de operação portuária deixou de ser intangível. Ele agora pode ser capturado, codificado, auditado e transferido. A digitalização do saber tácito não substitui o operador, mas transforma sua experiência em infraestrutura permanente, reduzindo gargalos, mitigando a escassez de mão de obra qualificada e elevando a produtividade a patamares que a automação mecânica, sozinha, jamais alcançou.

Para o Brasil, que já conta com empresas como a Priime Tech operando em mais de 130 portos e terminais como Itapoá batendo recordes de movimentação, o caminho está aberto. O setor portuário nacional acumula atrasos estruturais em relação aos líderes asiáticos, mas a presença de fornecedores brasileiros com soluções exportáveis para mais de uma centena de terminais no exterior mostra que a capacidade de inovação existe. O desafio agora é replicar internamente, com a mesma urgência, o que já se prova eficiente lá fora — transformar o conhecimento tácito dos operadores brasileiros em ativos digitais antes que ele se perca com as próximas gerações de aposentados.